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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Cem cachaça


Cem cachaça


Joka ou João Carlos, ninguém soube porque, naquela noite carregava na sua pick-up S10, um caixão, cor de vinho, vinha da casa da amante.
Onde a discussão correu até a madrugada, também nunca se soube o que causou a rusga, mas isso é só para ilustrar e dar conta de onde surgiu o caixão, um dos protagonistas de uma madrugada, muito estranha nesta cidade pequena e isolada.
O segundo também que se tornou protagonista é Belmiro Galvão de França, moço dos seus 32 anos, mas que aparenta muito mais, pelas eternas luas que serviram de companheiras nas noites que passou ao relento.
Bom, Belmiro era o mais conhecido personagem da cidadezinha, pois era ele o Cem Cachaça, apelido que ficou famoso em pouco tempo, depois de uma paixão que destruiu o interesse do moço pela vida.
Cresceu junto com Marilia, prima de primeiro grau, moça de cabelos negros bem tratados, prendada nas cousas de casa. Pele branca, macia de seda, virgem como pede a tradição mineira.
Nesse crescer junto, Cem Cachaça, ainda Belmiro, se apaixona pela donzela, que por educação, não o maltratava, mas nutria sim carinho pelo primo, não via como pretendente.
Marilia era desejo e infortúnio na vida e olhos do moço e todos já haviam percebido.
Mas primos juntos como marido e muié, traz coisa ruim, diziam entre si as tias e outras da família.
Os homens nem conversavam sobre, pois isso é impossível, mesmo para o querido e educado Belmiro.
Esse infortúnio virou fixação e depois obsessão, a coisa ficou muito feia e grave, pois nosso moço se declarou e por Marilia foi rejeitado!
Desse dia para frente Belmiro moço bom, barba feita, roupa limpa, amigou-se de amor e paixão pelas cachaças. Passou a não degustá-las e sim a ser dominado. Mãe rezava novena, pai primeiro a raiva e depois o deserdou. Belmiro bebia tanto e nunca da vida reclamou, só se deixou molhar pelas belas cachaças mineiras, e era promíscuo, pois amava todas, e ao mesmo tempo.
Daí os boêmios que eram poucos, um dia pagaram muitas até ele cair, no chão sem reclamar. Foi motivo de chacota e apelido de Cem Cachaça ficou!
Nunca mais falou com os pais e via Marilia linda, agora mulher passar e nunca para ele olhar.
Umas diziam, “moço fraco da cabeça”, beatas de igreja, gente fresca. Aos poucos não era nada, só um monte de carne amante da cachaça.
Cem Cachaça dormia embaixo de uma pitangueira, arvore de fruto preferido na praça 05 de Outubro, onde não havia igreja, apenas alguns bancos, dois bares e cachorros companheiros.
Nesta praça serpenteava uma das três avenidas. Essa era a São João de onde se ia e vinha do bairro do Mourão. Por ai é que numa noite surge Joka e seu carrão, que voltava alucinado. Viu Cem Cachaça no chão, teve idéia rápida sem preocupação. Pai rico, pouco estudo, um segundo e se lembrou de fazer maldade. Por no caixão Cem Cachaça, que nem se mexia. Isso foi fácil, era osso e pouca carne. Deitou o corpo e fechou a caçamba e dirigiu pensando onde deixar esse defunto vivo. Lembrou de Chico Coveiro, nego véio e brincalhão, morava no velório ao lado do cemitério.
Joka pára em frente à entrada do cemitério e já viu os dentes do Chico Coveiro, que vinha pitando cigarro de paia, sorria como sempre, mesmo antes de saber de nada.
Mas caiu na gargalhada, ao ver Cem Cachaça num caixão e Joka dizendo o que ia fazer. Chico véio e faceiro, vivido e espirituoso, nunca medroso, já foi dizendo que as flores ele tinha, nuns túmulos vizinhos. Joka burro e bronco com a cabeça aceitou e Chico Coveiro se aprontou, pedindo pro moço pra entrar pelo lado do velório com aquela encomenda viva.
Depois de nos cavaletes depositaram o caixão, Chico achou feio e fúnebre. Joka dizia é vinho, Chico com razão é roxo e feião.
Dois companheiros chegaram. Ninguém viu e notou, cachorros que viviam e lambiam há tempos Cem Cachaça no seu leito ao chão.
Deitaram num canto e assistiram a encenação. Sem medo de gente viva ou mesmo morto novinho, Chico Coveiro respeitava os seus vizinhos. Então em cada tumulo que flores retirou, conversou com afeto e explicou a situação do moço ,que precisa de flores. “Sozinho não tem irmão, vou tirar as tuas flores, pois vocês não precisam mais não”. Eram três novos moradores, ai cada um aceito calado e deixam Chico Coveiro, as flores lindas e uma cora chique levar roubadas.
Chico voltou e Joka sentando nada dizia e a brincadeira se esvaia. Levantou e foi embora. Arrumando as flores Chico viu um movimento do morto vivo que enfeitava. Pediu ao Cem Cachaça, que acabasse de se ajeitar, pois queria deixar bonito o ilustre visitante. Depois de meia hora abriu a porta que dava para o corredor dos que velavam, como num relâmpago, ai tudo se sucedeu e parecia filme de Bunuel. Surreal, ele ria num canto meio escuro e o seus dentes de negro se destacavam. Entrou pela porta uma senhora curiosa que gostava de saber quem morria ali agora. Chico explodia baixinho e olhava, a véia não entendia, mas em passos curtos continuava, pertinho disse ao defunto, que para ele ia rezar.
Ai o furdoço operou uma coisa desvairada. Pois neste instante já era tarde, uns disseram 4 horas, outros 3 e meia, Cem Cachaça levantou o tronco e a véia gritou louca e desesperada, Cem Cachaça respondeu:

Quero uma cachaça!

Chico Coveiro no canto era pura e louca gargalhada. Os cachorros correram e a véia gritava. Os cães latiam e rosnavam e tudo desmoronava. Ela saiu aos gritos, correndo branca e aflita, passou pelos amigos que o outro defunto velavam. Quatro medrosos com ela fugiram juntos sem saber o que havia ou se passava, e os cães grunindo e latindo iam atrás.
Foi uma carreira sem rumo ou beira, véia, cachorros e quatro outros desconhecidos gritando assustados, com que ouviram da véia.
Nesse espaço de tempo Cem Cachaça, meio tonto, tonto e meio, fez um movimento, virou um pouco, deu conta do Chico Coveiro, que ria e chorava. Levou susto com a figura e o cheiro de flores que no peito tinha. Assim tentou levantar, mas o pé do caixão desequilibrou, estrondo horrível. Aguçaram dois corajosos que no outro velório sobraram, entre olhos e curiosos, se aproximaram, pasmos e assombrados, vislumbraram cena incrível, caixão semi caído, nego preto gargalhando e um defunto bêbedo, que deu um passo e assim cambaleante na direção dos homens inertes e paralisados, ouviram um pedido de cachaça nos dizeres do contador Cem Cachaça:

Uma cachaça seu moço se não eu morro!

Aqueles pobres homens, vendo flores caindo, num defunto de pé, branco e cadavérico, um se urinou e abraçados gritavam, “cousas de outro mundo” e em carreira tropicante desembestaram para rua.
Chico Coveiro era nego de pura alegria, ria e chorava, sentado no chão!
Cem Cachaça não entendia e entre flores e gritaria foi para rua na noite fria e escura, uma cachaça queria!
Olhou para trás e só via uma imagem muito estranha , dentes brancos sorridentes!


Heleno Vieira de Oliveira
Inicio em Pouso Alegre-07/02/2009
Itajubá-08/02/2009




3 comentários:

Anônimo disse...

História chocante!!!

O ser Humano virou pior que animal feroz!!!

Obrigado por me permitir visitar este Espaço que acei interessanteeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee...........Parabéns e muitas FELICIDADES!!! ...BJS~~

Almeida Lucius ™/ Ulisses Reis ®/Heleno Vieira de Oliveira disse...

Espero ver vc aqui outra vez, mas deixe um Nome ou jeitinho para contato, mas obrigado, assim mesmo!!

Ana Casada disse...

otima historia,,,mas eu gostei mais do texto do lado,,"sou eu "
muito bacana,,
vc realmente tem o dom das palavras,,,

bjocas

ana

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